Literatura popular

 Eu disse outro dia numa rede social que a arte que agrada a elite é sempre a clássica, porque é pasteurizada pelo tempo, isso porque a arte popular é aquela que faz o pobre gozar. E há algo mais perturbador para a elite do que um pobre feliz?

Digo isso porque agora me abriram os olhos para a literatura popular. Quando a gente entra na Amazon hoje em dia vemos histórias de vampiros, lobisomens e de CEOs implacáveis que amam mulheres simples. É uma literatura feminina, popular, ainda que de classe média, escrita de mulheres para mulheres.

E, constatemos, tem muita mulher lendo.

O amor outrora era dito como coisa de mulher, mas somente os poetas homens podiam falar de amor. A palavra era domínio masculino violado por raras exceções. E quantos não são os autores clássicos que foram publicados primeiramente nos folhetins, em papel barato vendido em banca de jornal a centavos? Nas revistas e jornais populares que circulavam pela sarjeta? Quantos desses autores não foram aviltados e classificados com amorais, como de pouca qualidade ou erudição? Hoje, esterilizados pelo tempo, suas vozes ecoam na boca daqueles que, talvez, em sua época, os desmereciam.

É claro, na peneira do tempo nunca passa o que é ruim. E para cada Machado de Assis que furou a bolha de seu tempo, houve cem ou talvez mil escritores cujas palavras jamais serão lembradas. Essa peneira não é natural, ela é um recorte muitas das vezes elitista atravessado por raça e classe (no Brasil não são a mesma coisa?). Os problemas que os clássicos apontam são problemas de sua época que, quando não superados, podem ser vistos com uma textura de vanguardismo que os distancia da nossa realidade pela conveniência do tempo, mesmo que continuem sendo mais atuais do que nunca.

Vi um vídeo hoje falando que os BookToks, Bookinstagrams e Booktubes da vida estariam "afastando as pessoas da leitura", pois estariam impondo um ritmo desumano de compra e de leitura de livros. Eu acho isso um absurdo. Vejo inclusive amigos que tentam viver de literatura saindo das redes sociais. Vejo um autor que desconhecido que não gosta de redes sociais hoje (2024) como um autor desconhecido não querendo aparecer na TV nos anos 50 ou 70. Não estou falando de um autor que já vende muito e que tem uma carreira sólida, mas sim de pessoas que ainda não conseguem viver de sua obra.

Não estou dizendo que a rede social não é um ambiente hostil e tóxico onde quase beira um anarcocapitalismo cibernético. Isso é fato para qualquer um ver. Mas qual artista nesse cenário pode se dar ao luxo de negar qualquer oportunidade que tenha de se aproximar de seu público?

São perguntas sinceras as que faço aqui. Esse não é um assunto fechado e não me privo da possibilidade de mudar de ideia, mas sigo, nesse momento, com a fome de ser lido e farei qualquer coisa para me saciar.

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