Análise da letra Eclipse do Pink Floyd.
Ainda na vibe do post de ontem ("A arte como coisa outra"), decidi escrever sobre uma das músicas do álbum clássico Dark Side of the Moon da banda de Rock Psicodélico Pink Floyd. A música que não sai da minha cabeça é Eclipse
Um disco histórico.
Lançado em 1973, o álbum The Dark Side of the Moon, da banda Pink Floyd, tornou-se um dos marcos culturais mais importantes da música popular do século XX ao unir experimentação sonora, inovação tecnológica e reflexão filosófica em uma obra conceitual coesa.
Seus temas centrais, como o tempo, a morte, a loucura, o dinheiro e os conflitos da vida moderna, ultrapassaram o universo do rock e passaram a dialogar com questões universais da experiência humana. Além disso, o álbum ajudou a consolidar a ideia do disco como uma obra artística completa, e não apenas uma coleção de músicas, influenciando gerações de músicos, cineastas, escritores e artistas visuais.
Décadas após seu lançamento, sua permanência entre os álbuns mais vendidos e discutidos da história demonstra como suas inquietações continuam ressoando em diferentes contextos culturais e sociais.
O álbum Dark Side of the Moon quase se chamou "Eclipse".
Uma das curiosidades sobre a música Eclipse que destaca sua importância para o álbum é que ela quase nomeou o disco inteiro porque, em 1972, outra banda, a Medicine Head, tinha lançado um disco justamente chamado Dark Side of the Moon.
Então, o Pink Floyd pensou em chamar o disco de Eclipse, mas como o disco da Medicine Head foi um fracasso de vendas ainda em seu lançamento, eles decidiram manter o título que a gente conhece hoje.
Mas antes da gente começar a interpretar a letra, ouça Eclipse. Só viaje na música, mesmo que você não entenda inglês.
Sonoridade:
A sonoridade de “Eclipse”, possui uma forte aproximação estética com elementos que mais tarde seriam associados pelo público a um imaginário gospel, especialmente pelo uso crescente de corais femininos, harmonias coletivas e uma construção musical que soa quase litúrgica.
A música abandona a estrutura tradicional do rock e se transforma numa espécie de proclamação solene: Roger Waters enumera aspectos da experiência humana enquanto as vozes de apoio respondem e ampliam suas frases, criando um efeito semelhante ao modelo de “chamada e resposta” muito presente nas tradições religiosas afro-americanas e no gospel.
Entretanto, o efeito não é exatamente religioso no sentido cristão. O que o Pink Floyd faz é utilizar recursos emocionais do gospel para construir uma espécie de transcendência secular. O órgão de Richard Wright, as harmonias ascendentes e o crescimento progressivo do coro produzem a sensação de uma revelação ou de um sermão cósmico chegando ao ápice. A música culmina numa explosão sonora quase redentora, mas a mensagem final é ambígua: tudo está “em sintonia”, porém o Sol permanece eclipsado pela Lua. Ou seja, a iluminação prometida nunca é completa.
Há algo interessante aí. Enquanto o gospel tradicional costuma apontar para uma salvação exterior, “Eclipse” transforma essa energia coral em uma reflexão existencial.
O coro não anuncia Deus, ele anuncia a condição humana.
A experiência sonora lembra uma missa, mas a teologia foi substituída por uma meditação sobre consciência, morte, desejo, loucura e limite. Por isso a faixa soa simultaneamente espiritual e melancólica. Ela utiliza a linguagem afetiva do sagrado para falar de um mundo sem garantias metafísicas.
As backing vocals de Doris Troy, Lesley Duncan, Liza Strike e Barry St. John são decisivas para essa sensação. Elas não aparecem apenas como ornamentação, mas como uma espécie de comunidade de vozes que envolve o ouvinte e transforma o encerramento do disco numa cerimônia sonora
Então, vamos analisar agora a letra frase a frase?
Segue uma tradução livre (feita por mim).
Tudo que você toca.
Tudo que você vê.
Tudo que você prova.
Tudo que você sente.
E tudo que você ama.
Tudo que você odeia.
Tudo que você desconfia.
Tudo que você poupa.
Tudo que você dá.
Tudo que você negocia.
Tudo que você compra,
implora, toma emprestado ou rouba.
E tudo que você cria.
E tudo que você destrói.
E tudo que você faz.
E tudo que você diz.
E tudo que você come.
E todo mundo que você conhece.
E todos que você despreza.
E todo mundo com o quem você briga.
E tudo que é agora.
E tudo que se foi.
E tudo que está por vir.
E tudo sob a luz do sol está em sintonia.
exceto que o Sol está eclipsado pela lua.
(Versão original em Inglês aqui)
Na minha leitura, a letra parece descrever uma ruptura na continuidade da experiência subjetiva, como se houvesse um desencontro entre aquilo que o sujeito espera encontrar no mundo e aquilo que efetivamente encontra. O que escuto nessa poesia é uma tensão entre o desejo, os objetos que tentam satisfazê-lo e os limites da própria realidade. Essa interpretação pode ser aproximada de alguns conceitos da psicanálise lacaniana, especialmente o Outro, o objeto a e o Real.
O Outro (com O maiúsculo) não é simplesmente outra pessoa. Em Lacan, o Outro é o lugar da linguagem, da cultura e dos significantes que existem antes do sujeito nascer. É do Outro que recebemos nosso nome, nossa língua, nossos valores e até mesmo as perguntas através das quais passamos a compreender quem somos. Quando desejamos, desejamos sempre dentro de uma rede simbólica fornecida pelo Outro.
O objeto a (objeto pequeno a) não é um objeto concreto. Trata-se da causa do desejo. O sujeito frequentemente acredita desejar um carro, uma pessoa, um título acadêmico ou reconhecimento social, mas, quando alcança essas coisas, o desejo não desaparece. Isso ocorre porque o objeto a não é o objeto obtido; ele é justamente o que falta e que mantém o desejo em movimento. É um vazio estrutural que impulsiona a busca.
O Real é talvez o conceito mais difícil. Diferentemente da realidade cotidiana, o Real é aquilo que resiste à simbolização. É o que não pode ser plenamente capturado pela linguagem ou integrado às narrativas que construímos sobre nós mesmos e sobre o mundo. O Real costuma aparecer como ruptura, trauma, estranhamento ou excesso, nos momentos em que nossas explicações deixam de funcionar.
Lida por esse prisma, a letra poderia estar encenando um instante em que a articulação habitual entre sujeito, desejo e mundo vacila. O objeto que parecia prometer satisfação não ocupa mais seu lugar esperado, o Outro deixa de fornecer uma garantia estável de sentido e algo do Real irrompe na experiência.
O resultado é uma sensação de assincronia, como se o sujeito continuasse presente no mundo, mas já não estivesse plenamente alinhado com ele. Essa hipótese é apenas uma leitura possível, mas ela ajuda a compreender por que certas passagens da canção podem transmitir simultaneamente fascínio, estranheza e desorientação.
Eu dividi a letra por setores, onde, na minha interpretação, são descritas experiências humanas.
Para facilitar a interpretação, eu decidi ver a letra dividida nos seguintes setores:
1. Sensações
Tocar, ver, provar e sentir.
2. Sentimentos
Amar, odiar, desconfiar e poupar.
3. Relação com o Outro
Dar, negociar, comprar, implorar, tomar emprestado e roubar.
4. Transformação da realidade
Criar, destruir, fazer, dizer e comer.
5. Pessoas
Todos que você conhece, despreza ou com quem briga.
6. Tempo
Tudo o que é agora, tudo o que já foi e tudo o que está por vir.
7. Harmonia e ruptura
A afirmação de que tudo está em sintonia sob o Sol, seguida pelo eclipse que rompe essa aparente totalidade.
Em forma resumida, a sequência seria:
Sensações → Sentimentos → Outro → Transformação da realidade → Pessoas → Tempo → Harmonia/Ruptura.
A forma como esses setores são divididos também é interpretação minha, porque o texto da letra original é corrido, ou seja, não há parágrafos.
A música inicia com o primeiro setor, descrevendo sensações com o verso "tudo que você": "toca", "vê" ou "prova" (no sentido de paladar ["taste"]); depois migra para sentimentos com "tudo que você": "ama", "odeia" ou "suspeita" (desconfia) e "poupa", que é traduzido de "save". Essa palavra pode ter vários significados na língua inglesa.
Eu escolhi traduzir como "poupar" porque pode significar tanto "economizar" quanto "salvar", no sentido literal da língua portuguesa, ou até mesmo "poupar" no sentido de aliviar de um mal que seria sofrido.
É importante lembrar que Dark Side of the Moon é um álbum, um conjunto de músicas. As canções, na minha opinião, perdem parte de seu sentido quando isoladas. Uma das provas disso talvez seja que, em algumas músicas, é possível ouvir trechos da música que vinha antes, como é o caso desta, onde ouvimos parte da melodia final de Brain Damage, a faixa anterior.
Considerando isso, é preciso lembrar que esse é o mesmo álbum que contém a música Money, que é uma crítica bem clara ao capitalismo. Então, "save", eu escuto mais como "economizar", mas, para manter a ambiguidade, escolhi "poupar", que pode ter os dois significados.
Mas, seguindo a análise, passamos dos sentimentos para a interação com o Outro, ainda com essa vibe de relação de objeto, com "tudo que você": "dá", "negocia", "compra" e o combo: "implora, toma emprestado ou rouba", que marcam uma relação de desencontro com esse desejo alheio, com esse Outro.
Essa coisa do Outro é um conceito que o Lacan criou para representar as relações humanas dentro do campo simbólico. É uma espécie de projeção simbólica da nossa mente sobre a relação com as pessoas ou a sociedade.
É importante destacar que, como já dissemos, o Outro não é uma pessoa, ou pessoas de verdade, mas sim um conceito amplo, um campo. O Outro é o lugar da linguagem, das normas e dos significantes que estruturam o desejo e a subjetividade.
Daí partimos pro setor que vai no sentido de alterar a realidade (experienciada), de construir o mundo a nossa volta com "tudo que você": "cria", "destrói", "diz" e "come".
Então, vamos para as pessoas ou o Outro. Parece que o conjunto do setor "todos que você conhece" é composto por "todos que você", segundo a minha tradução livre, "despreza" e todos com quem você "briga". Para mim, isso faz algum sentido, porque desprezar é uma coisa mais distante; é dizer de um outro (pequeno outro) que está ausente. Lutar (ou brigar) é algo presencial, por vezes corporal. "Todo mundo que": "você conhece", seguido por "todos" que "você despreza".
Aí já temos mais um desses impasses de tradução, que é a palavra "slight".
Dentre os vários significados que encontrei, o que pareceu rimar mais com o que é dito nos outros versos foi "desprezar", mas que também pode ser "falar mal".
Um fato curioso é que o seguimento do amor ("tudo que você ama") esteja lá no começo da letra, entre os sentimentos, e não apareça entre as pessoas. Mas aí a gente percebe um possível impasse de tradução, porque a palavra original em inglês, "all", pode ser "tudo" e "todos".
Então, aquele verso lá de cima pode significar também "tudo que você ama", que foi a minha escolha, mas que também inclui objetos.
Nesse trecho, Waters usa o termo "everyone" (todos ou todo mundo) duas vezes, nos versos "conhece" e "briga", mas, quando fala de desprezar, ele usa "all", que pode significar todos (pessoas) ou tudo (objetos e pessoas).
Mas talvez, nesse ponto, isso seja apenas chiste — não que chistes sejam algo a se desconsiderar ou desimportantes —, mas que haja aí um sentido que escapa ou talvez que nem exista.
Então sigamos. Porque agora entramos na experiência do tempo e quem já leu "A Palavra-Humana", meu romance de meta ficção, sabe que o tempo tem um significado especial para mim. No setor do tempo temos "tudo que": "é agora", "já se foi" e que "será".
E os Waters encerra a canetada amarrando todo o texto dizendo que estamos falando aqui de "tudo que o sol toca" e completando que estas coisas estão, no original em inglês, "in tune".
Essa expressão pode ser entendida como "tudo está em sintonia", como um sinal de rádio, mas também pode significar "afinar", igual quando "afinamos" um instrumento. Também tem a ver como "harmonia".
Mas aí vem o corte:
Tudo está em "harmonia" menos duas coisas: uma é uma cena cósmica apoteótica que está no topo dos céus e no título da música: que é o eclipse, ou como nos diz Waters na letra "exceto que o sol está eclipsado pela lua".
Mas há outra coisa que não está ali: a própria falta. Por que ele não diz tudo, ou "toda matéria" ou "tudo que existe", ele disse que é "tudo que o sol toca", são todas essas coisas (que o sol toca) que estão "sintonizadas", "afinadas" ou em "harmonia".
Lembrando que é interessante o destaque d'agente entender que tune também pode significar "afinar" porque "harmonia" em música é um conceito subjetivo, que é construído socialmente, que é um acordo que não necessariamente está ancorado no real.
A música tem uma estrutura matemática, ou seja, uma estrutura de linguagem. Existem diferentes escalas musicais em diferentes partes do mundo. Uma música de uma parte do mundo pode parecer "desafinada" em outra, assim como palavras têm significados diferentes em países que falam línguas parecidas.
Então, correndo ainda mais risco aqui de cometer uma "interpretose", ou seja, uma interpretação forçada, digo que o eclipse é o momento em que talvez se perceba a falha nessa harmonia, onde a gente possa contemplar a falta (talvez indiretamente) mesmo durante a luz do dia quando as coisas são tocadas pelo Sol.
A "falta" é esse conceito em psicanálise que diz que existem coisas que estruturam o nosso desejo como sentimentos, pensamentos e até experiências que nunca poderão ser representadas em palavras, que existe esse buraco na linguagem e, portanto, na experiência humana que não pode ser preenchido. No meio desse buraco em torno do qual a nossa linguagem orbita está o Real.
É importante destacar ainda que, durante a maior parte da existência da humanidade nesse mundo, eclipses eram eventos apoteóticos, esotéricos, eram milagres, manifestações divinas, lembrando que talvez a adoração ao sol tenha sido uma das formas mais primordiais de religião que conseguimos pensar.
Então temos um corte nessa harmonia, uma harmonia que as vezes a letra faz por oposição como "amor" e "ódio", ou "cria" e "destrói. Na minha cabeça, talvez isso possa ser encarado como uma analogia à essa falta de harmonia que a experiência humana inevitavelmente atravessa.
Mas talvez "Eclipse" não esteja descrevendo apenas setores da experiência humana. Ela pode estar descrevendo uma tentativa fracassada de totalizar a experiência humana. O eclipse não seria apenas mais um setor ao lado dos outros. Ele seria aquilo que demonstra que nenhum dos setores consegue formar um todo completo.
Nesse sentido, o último verso não conclui a música. Ele desfaz a conclusão que a música estava prestes a alcançar. E é por isso que ele permanece tão memorável.

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