Não é só sobre ética, é sobre a IA ser uma assessoria – pobre.
Falar de IA é uma coisa que, no ano da desgraça de 2026, pode incendiar muitos humores, principalmente quando, como eu, você fala para pessoas de humanas e artistas. Mas calma, vamos entender bem porque sim, devemos falar mal, mas como falar mal e porque devemos, de certo modo entender tudo isso... Mas talvez a gente esteja jogando fora o bebê junto com a água suja se não considerarmos o contexto no geral.
Bom, vamos lá:
Recentemente falei aqui pra vocês sobre minha renúncia a imagens geradas por IA. Mas o que eu nunca tinha contado pra ninguém é que eu sou um senhor gerador de textos para redes sociais com IA. Primeiro é bom a gente explicitar de onde a gente fala e
eu sou um entusiasta de novas tecnologias.
Sou da geração que viu a internet nascer, que viu o Google passar de uma enciclopédia de besteirol nada confiável a um substituto do dicionário e das enciclopédias aos olhos do grande público. Na minha época de faculdade, lembro de como os professores orientavam a gente procurar a biblioteca da faculdade e não os artigos do Google porque lá "só tinha besteira e quando tinha algo útil, era raso"; sendo que hoje é possível generalizar e dizer que quase toda pesquisa passa por ele.
Então, o jovem entusiasta que viu a internet nascer deu um grito em mim quando começou a rolar essa conversa de Inteligência Artificial. Lembrei dos velhos falando mal do Google, falando mal da Wikipédia e impedindo o nascimento de uma nova cultura que facilitava o acesso ao conhecimento (será mesmo?). Logo, eu não podia ser um negacionista. Eu tive que explorar a ferramenta.
Usei de tudo. De geradores de imagens suspeitos como o CrAIyon, ao complexo MidJourney, que só tinha acesso quem conseguia destrinchar um complexo fórum do obscuro Discord. Criei personas no Chat GPT, vibrei com Gemini, me empolguei com as IA's de código aberto como o Deep Seek. Cheguei a rodar Llama no meu PC de forma local. E sim, preciso confessar, gerei alguns textos com essas ferramentas.
Mas talvez a IA consiga gerar textos técnicos ou genéricos, além de ser uma ótima ferramenta de desenvolvimento de códigos para programação, mas nada de arte.
O título do texto já é uma prova de que a IA não escreve bem (sozinha) e isso é um fato. Tenho visto muitos vídeos de escritores profissionais apontando erros crassos que a IA comete, como esse tipo de analogia barata e sem sentido e não é só sobre travessões – que são usados em apostos desde que a literatura foi inventada, é sobre pobreza textual. Falando de forma poética aqui, afinal estamos falando de arte, a IA gera textos frios que as vezes fazem levantar uma sobrancelha, porque a IA é um gerador de probabilidades, não um poeta.
Ela não tem contato com a realidade, não sente, não tem vontade, então assim como ela coloca seis dedos numa mão, porque ela não sabe de verdade o que é uma mão, ela também pode se repetir, delirar, fazer conexões sem noção e por ai vai. No entanto, como ela consegue ter uma coesão interna mínima, ela ainda engana fazendo a gente achar que esse bando de caracteres selecionados matematicamente são um texto que tem uma intenção por traz, porque não há.
Talvez o grande erro da IA seja de marketing.
Hoje em dia, todo lançamento de produto de tecnologia tem que se vender enquanto uma revolução e isso é culpa do Steve Jobs. O falecido CEO e cofundador da Apple inventou o lançamento de produtos eletrônicos nesse formato de "show gospel" onde a plateia vai a loucura quando recebe a "revelação profética" do futuro nas mãos de um orador carismático.
Daí, as empresas, de olho no lucro, nos fizeram crer que era possível revolucionar a tecnologia todo ano.
Vivemos um momento ímpar na história da humanidade, um momento em que a tecnologia avança a passos largos como nunca visto antes. Vivemos milênios sem novas tecnologias disruptivas e, em menos de dois séculos, fomos da charrete puxada pelo cavalo até robôs semiautônomos que exploram Marte.
Mas uma hora essa curva de crescimento insana encontraria seu platô.
Seja por limites físicos ou políticos que atrapalham o desenvolvimento desenfreado, chega uma hora em que não dá mais pra "revolucionar" todo ano. Além disso, enfrentamos uma bolha especulativa no capitalismo onde as coisas valem mais do que parecem. As empresas não estão tão interessadas assim em fazer produtos, mas sim em convencer seus acionistas de que existe um lucro absurdo num futuro que retornará o investimento.
Por isso parece que as grandes empresas não estão interessadas em fazer bons produtos, mas sim em fazer produtos que gerem hype que elevem as ações. E quando temos histórias como a da Uber, por exemplo, que ficou anos se sustentando apenas do dinheiro dos investidores e hoje é quase um monopólio bilionário, a ganância faz os olhos de quem está no mercado crescer e fazer parecer que mais vale o investimento do que o produto em si.
Porém, e quando o hype é apenas uma bolha?
Não podemos negar que a IA é uma tecnologia revolucionária. Ela facilita muitos processos e tende a ser uma nova interface entre o ser humano e o processamento de dados. No entanto, devido ao monstro do hype e essa necessidade de viver de investimento e não da venda dos produtos em si, eles
tentam vender a IA como um monstro autoconsciente que vai dominar o mundo.
E na minha opinião, a pior venda que qualquer pode fazer é uma falsa promessa. Não precisa estudar mais do que 5min pra saber que a IA não é um psicólogo, que ela não tem consciência muito menos vontade. Porém, assim como num culto, as grandes empresas de IA parecem promover um Deus Ex Machina que vai resolver todos os problemas coletivos e pessoais.
Dá pra entender porque fazem isso. Uma tecnologia do tamanho das IA's precisa sim de muito investimento, e investimento a longo prazo. E, no tempo em que vivemos, é preciso uma historia mirabolante para atrair tanto dinheiro.
afinal, na sociedade liquida a realidade não basta mais.
Somos bombardeados com absurdos o tempo todo, sejam eles ficcionais ou reais. Alias, vamos pro campo metafísico: o que é mesmo a realidade? Temos de fazer essa pergunta se queremos entender realmente o cerne dessa questão. No fim das contas, somos atravessados por instituições que nada mais são do que acordos coletivos baseados em convenções, muitas vezes, esses acordos são ancestrais e vieram de algo etéreo que, muitas vezes, a gente sequer sabe responder de forma consciente de onde vieram, se formos investigar.
Eu sei, viajei aqui na filosofia. Mas a gente precisa entender isso se queremos entender o que é a realidade. Vivemos num mundo em que fantasias não se materializam, mas elas já têm forma, cor e som. Elas nos acompanham em nossos bolsos todo o nosso tempo de vigília e querem nossa atenção. A IA já se tornou recentemente uma geradora de vídeos. Hoje, por mais porco que seja o resultado, qualquer um que saiba escrever e tenha o mínimo de pensamento lógico pode produzir uma imagem e até vídeos do nada (e sem custos!).
Essas imagens que ocupam nossa visão boa parte do tempo, também são nossa realidade.
Sartre descreve a imaginação como a presença de objetos ausentes. Logo, hoje em dia, nós, seres movidos pela falta somos rodeados de objetos ausentes. Quais impactos isso pode ter na nossa mente?
Além disso, talvez quem tenha um letramento digital mais desenvolvido pode acabar acreditando que a capacidade de discernir a imagem da realidade é comum à maioria das pessoas, mas cada dia mais a IA tem provado que não é, que as pessoas tendem em geral a acreditar, principalmente naquilo que confirma seus medos e anseios.
Fora que, o conteúdo produzido por IA é de baixa qualidade, mas é acessível.
Muitas vezes, o absurdo é mais fácil de vender do que a realidade dura e cinza. Desmentir uma historia absurda dá muito mais trabalho do que contá-la e, cada vez mais, eu temo que há mais conteúdo de má qualidade ou ate mesmo mentiroso sendo produzido do que o conteúdo de boa qualidade, pois conteúdos de alta qualidade tendem a ser difíceis de digerir – Não deveriam, mas são!
E quando escrevemos com IA poupamos o primeiro passo, da página em branco, mas não nos poupamos de uma imensa pesquisa e de uma cansativa revisão.
Quando você é um bom escritor e escreve com IA, muito provavelmente vai descartar as primeiras sugestões de texto que ela vai "cuspir". Quando encontrar um texto que te apeteça, você vai perceber que esse texto se parece muito mais com o que você escreve do que com algo genérico que IA vomita por aí, mas sem ser bom o suficiente.
Então, a primeira coisa que você deve se perguntar é: valeu a pena esse esforço? Claro que a resposta é contextual, no entanto, se vencer a página em branco não é sacrifício para você, a IA já se tornou inútil.
No meu processo de escrita eu só jogo uma torrente de ideias num papel, e depois (se eu tiver paciência) pesquiso e edito. Mas na grande maioria das vezes, só publico mesmo.
Por muitas vezes, ao gerar esses textos para as redes sociais eu percebi que, ao invés de escrever, eu estava me tornando uma espécie de editor do texto, ao invés de autor. Era como se eu estivesse mentorando um aprendiz de escritor muito ruim que, a todo tempo, precisa ser corrigido. E isso cansa.
Mas a IA também pode ser utilizada para organizar ou construir textos.
Uma dica que eu posso dar nesse momento é que: NUNCA DEIXE A IA REESCREVER UM TEXTO SEU. Em plataformas como ChatGPT onde é permitido você alterar os parâmetros da IA, uma das coisas que eu configuro é justamente que o texto nunca será reescrito pelo Chat. Correções de vírgulas, concordância, erros de digitação ele até faz muito bem desde que você esteja atente. Isso porque ele sempre tende a querer modificar algo.
Mas aí a pergunta que você deve se fazer é: você quer escrever um texto genérico?
A minha resposta é um enorme não quando se trata de artes. Como eu já disse, eu não curto fazer conteúdo, eu curto fazer arte (sem entrar na polêmica de se arte pode ser conteúdo e vice-versa). Mas, hoje em dia, praticamente, se você não existe nas redes sociais, pessoa amiga, você não existe.
TODO MUNDO ESTÁ NAS REDES, MESMO QUE INDIRETAMENTE
Não cabem nas duas mãos a quantidade de artistas que eu conheço que negam ter redes sociais, mas eles tem perfis feitos por fãs, perfis institucionais, perfis "paralelos" que se dizem não oficiais. Eles estão lá, não há como negar isso. Na rede social tá até quem já morreu.
E eu não sou uma pessoa rica que pode contratar uma agência ou um assessor pra fazer meu trabalho aparecer por aí, nem tenho fãs que façam isso de graça por mim. Então a IA é minha assessoria de pobre. Alias, não é de hoje que conteúdo mal produzido por IA tem sido associado a "coisa de pobre".
Mas e as questões éticas por trás das empresas de IA? E os artistas roubados?
Camaradas, então. Aqui vou ser polêmico. Eu acho que quem não usa IA porque quer salvar a natureza ou os artistas está no mesmo patamar da galera que faz xixi no banho para economizar água e salvar o mundo. Pronto, falei.
A gente vive no mundo em que carros elétricos produzem um tipo de lixo intratável com suas baterias, onde indústrias gastam toneladas de água pra produzir um produto de poucas gramas, em que um bilionário emite mais carbono num voo de jatinho que você vai produzir em anos da sua vida com seu uno 1.0 movido a gás indo trabalhar todos os dias (o que já é, em média, um privilégio).
Temos que lutar? Sim! Mas eu acho que essa luta é política, ou seja, não é individual, é coletiva!
Eu, sinceramente, acredito que a luta para gente ter uma IA mais ética tem que rumar para a regulamentação. E outra coisa, precisamos incentivar mais IA's Open Source como o DeekSeek que, aliás, até onde eu sei é a única IA cujo código é verificado por pares! E ela é Chinesa, produzida por universidades públicas e gratuita!
Os verdadeiros algozes do povo estão se escondendo por trás de moinhos tecnológicos. A gente vai sobreviver sem o Chat GPT, sem Google, sem Amazon... A tecnologia é feita de pessoas, não de conglomerados capitalistas que se erguem como feudos cibernéticos! Mas aí, isso é um papo pra outro textão.
Encerrado, eu vou continuar usando IA por curiosidade. Mas não vou "escrever" usando IA.
Até porque o que eu faço não é escrever usando IA. IA não escreve. IA não pinta. IA não tem intenção e não existe arte sem intenção, porque não existe arte sem gente por trás. A IA nunca vai ser gente. Talvez, num futuro distópico semelhante ao pintado pelo marketing das empresas, IA seja uma espécie de deus, mas nunca será gente.
Muita gente acha erroneamente que produzir um texto sério usando IA pode ser feito com apenas um prompt, sendo que na realidade que eu experimento, as vezes nem dá pra usar apenas uma IA, usamos várias delas. Ela pode te auxiliar na pesquisa, pode te ajudar a ter ideias, mas nesse momento do espaço-tempo em que vos escrevo esse texto, ela não substitui um humano a não ser que você queira ser raso, genérico ou extremamente lógico – apesar de que, até nessa lógica, os programadores que eu conheço alegam há uma margem de erro.
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