Não existe isso de "gênio"

Durante muito tempo, a ciência tentou fazer mulheres brilhantes parecerem “exceção”. Hoje celebramos quem nunca aceitou diminuir seu brilho.

Gênio” é uma palavra curiosa. Em português, ela também descreve personalidade. Dizemos que alguém tem “um gênio difícil”, “gênio forte”, “gênio ruim”. A palavra, nesse caso, não fala de inteligência, mas de temperamento.

Mas o termo também tem uma história mais antiga. No latim genius, ele significava algo como o espírito que acompanha cada pessoa desde o nascimento, uma espécie de entidade protetora individual na religião romana. Cada indivíduo tinha seu próprio genius, assim como cada lugar tinha seu genius loci (espírito do lugar).

Curiosamente, em tradições afro-iorubás existe uma ideia que lembra isso: o orí, que representa o princípio espiritual ou destino pessoal de cada indivíduo. Alguns antropólogos, por exemplo, descrevem o orí como o “centro da individualidade e do destino” na cosmologia iorubá.

Então poderíamos brincar: "os gênios são geniosos por causa do seu gênio". Mas não é exatamente disso que estamos falando aqui.

Aqui estamos saboreando o outro sentido da palavra: o talento extraordinário, o ponto fora da curva, a habilidade quase sobre-humana.

Uma vez, tomando uma cerveja com minha irmã, ela me disse algo simples:

— Não existe isso de gênio.

Segundo ela, as grandes descobertas da história sempre foram assinadas por uma pessoa, mas quase sempre dependiam de uma rede inteira de colaboração social, institucional e afetiva.

E ela está coberta por um oceano de razão. A própria história da ciência confirma isso:

O sociólogo Robert K. Merton descreveu um fenômeno recorrente na ciência: a descoberta múltipla: quando várias pessoas chegam à mesma ideia de forma independente quase ao mesmo tempo. Isso aconteceu com o cálculo (Newton e Leibniz), com a teoria da evolução (Darwin e Wallace) e com vários outros casos.

Merton analisa isso no livro The Sociology of Science (1973). Ou seja: muitas vezes o “gênio” é apenas a pessoa cujo nome ficou no topo da pirâmide. E há ainda outro problema: a história apagou sistematicamente a participação de muitas mulheres nesses processos.

A historiadora da ciência Margaret Rossiter chamou esse fenômeno de “Efeito Matilda” que é quando descobertas feitas por mulheres são atribuídas a homens ou têm sua importância minimizada (Rossiter, Social Studies of Science, 1993).

Um exemplo famoso é Rosalind Franklin, cujos dados de difração de raios-X foram essenciais para a descoberta da estrutura do DNA, mas cujo nome ficou muito tempo à margem do reconhecimento dado a Watson e Crick.

Talvez exista, sim, algo como altas habilidades. Mas a experiência que chamamos de genialidade parece ser muito mais sociocultural do que metafísica.

Eu experimento minha relação com a arte como aquilo que a psicanálise chama de sentimento oceânico.O termo aparece em uma carta de Romain Rolland a Sigmund Freud e depois é discutido por Freud em O Mal-Estar na Civilização (1930). Ele descreve esse sentimento como uma sensação de fusão com o todo, uma percepção de pertencimento ao universo. Algo como sentir-se parte de tudo.

Talvez a genialidade seja menos sobre ver o que ninguém vê e mais sobre ver todo mundo. No fim das contas, o que faz um gênio é o reconhecimento do outro. Eu brinco bastante com essa ideia porque, no meu romance A Palavra-Humana, o protagonista sofre de uma deficiência egóica que o leva a usar seus “super-poderes” para obter exatamente isso: reconhecimento.

É por isso que ele se torna “o melhor escritor do universo”. Mas quem leu o livro sabe que há uma ironia aí: nada na habilidade dele de escrever realmente muda. O que muda é apenas o reconhecimento. Quantos artistas ruins têm reconhecimento? 

Nunca foi sobre "super habilidades".

Poderíamos dizer que a aclamação de um artista vem da sua capacidade de comunicação com o público, da habilidade de transmitir ideias, mesmo que elas não sejam muito complexas. Mas eu suspeito que não seja apenas isso.

Talvez o artista reconhecido seja apenas aquele que consegue se tornar um ponto de encontro. Uma espécie de lugar onde as pessoas se encontram para sentir alguma coisa juntas. Um lugar que depende de um contexto social, histórico e cultural.

E talvez seja isso que chamam de genialidade.

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