Por que, em algum momento, todo neurótico acha que está enlouquecendo?

Jackson Pollock | The Guggenheim Museums and Foundation
Arte abstrata: um quadro de Pollock

A neurose implica justamente uma relação conflitiva com o próprio pensamento. O neurótico não coincide consigo mesmo. Ele duvida do que sente, do que deseja, do que pensa. E quando essa divisão subjetiva aparece com força, a sensação pode ser: “estou enlouquecendo”.

Na psicanálise, especialmente em Lacan, a neurose é conflito estruturado. O sujeito neurótico vive atravessado pela linguagem, pela culpa, pela fantasia, pela repressão... Então pensamentos estranhos, impulsos agressivos, ideias absurdas, sensação de estranhamento de si, despersonalização leve, obsessões, crises de ansiedade, tudo isso pode emergir sem que haja ruptura com a realidade.

E é justamente aí que está um ponto importante: o neurótico geralmente teme enlouquecer porque ainda reconhece algo como estranho, excessivo, invasivo. 

Há angústia diante da possibilidade da perda de controle. Esse medo funciona quase como uma prova de preservação do juízo crítico.

Na psicose, em muitos casos, a questão aparece de outro modo. Não é “acho que estou ficando louco”. O problema frequentemente é que a experiência delirante se impõe como realidade. O sujeito não necessariamente duvida dela. Claro que isso não é absoluto nem simples, mas estruturalmente a diferença passa muito pela relação com a realidade compartilhada e com o significante. 

Além disso, existe uma questão contemporânea importante. Vivemos num regime de hiperreflexividade. As pessoas monitoram o próprio pensamento o tempo todo. Procuram sintomas na internet, observam emoções em excesso, transformam qualquer oscilação subjetiva em suspeita diagnóstica. Isso intensifica a sensação neurótica de ameaça interna.

O neurótico quer garantias impossíveis. 

Quer ter certeza de que continuará sendo “ele mesmo”, de que controla a própria mente, de que não existe um abismo dentro da linguagem e do desejo. Mas o sujeito humano é estruturalmente rachado. O inconsciente já é, em certa medida, uma experiência de estranhamento de si.

Então o paradoxo é este: muitas vezes, o medo de enlouquecer nasce exatamente da lucidez dolorosa de perceber que não somos transparentes para nós mesmos.

Se interessa pelo assunto? Seguem algumas referências importantes para sustentar teoricamente essa discussão:

  • Inibição, Sintoma e Angústia, de Sigmund Freud. Freud diferencia angústia neurótica, mecanismos defensivos e a relação do sujeito com o sintoma. É uma das bases para entender por que o neurótico teme perder o controle de si.
  • O Eu e o Id, também de Freud. Especialmente importante para compreender divisão psíquica, conflito intrapsíquico e a ideia de que o eu não é senhor em sua própria casa.
  • Neurose e Psicose. Texto curto, mas central para a distinção estrutural entre neurose e psicose.
  • O Seminário, Livro 3: As Psicoses, de Jacques Lacan. Talvez a referência mais importante para entender a diferença estrutural entre neurose e psicose em Lacan, especialmente a questão da foraclusão e da relação com o significante.
  • O Seminário, Livro 10: A Angústia. Fundamental para pensar a angústia não como simples medo, mas como afeto ligado ao desejo e ao encontro com algo do real.
  • Mal-Estar na Civilização. Importante para entender como a cultura intensifica culpa, repressão e sofrimento psíquico.
Como comentário complementar, há também uma aproximação interessante com a filosofia existencial de Jean-Paul Sartre, especialmente em O Ser e o Nada, quando ele discute consciência, nada e a impossibilidade de coincidência plena do sujeito consigo mesmo. Isso dialoga bastante com a experiência neurótica de auto estranhamento, ainda que Sartre e Lacan partam de fundamentos diferentes. 

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