Vivemos numa democracia?

Obra "Operários" de Tarcila do Amaral.
 

Uma vez escrevi aqui que não haveria um golpe da esquerda no Brasil. Poucos anos depois, em 2016, tivemos um golpe de direita. Talvez esse seja o tipo de coisa que faça alguém pensar: “eu não deveria falar de política na internet”.

Só que anos depois eu escrevi um livro que, segundo alguns leitores, antecipava justamente a radicalização política do país e o impacto das fantasias conspiratórias sobre as relações de poder. Então talvez o problema não seja falar de política. Talvez o problema seja que a política fala através da gente o tempo inteiro.

Hoje acordei pensando numa pergunta simples e desconfortável: será que a gente vive mesmo numa democracia?

E antes que alguém venha com delírio sobre urna eletrônica: eu acredito nas urnas, nos resultados eleitorais e na importância institucional do voto. O meu ponto é outro:

O que significa democracia num país atravessado por uma desigualdade tão brutal?

Eu cresci numa região onde compra de votos nunca foi exatamente um segredo. Na minha antiga zona eleitoral, época de eleição parecia festa: bar cheio, carros enchendo os quarteirões com sua música ensurdecedora e muita gente pelas ruas. 

Uma festa da democracia... Será? 

Faço essa pergunta porque muita gente dizia abertamente que “trabalhava” nas eleições. Recebia dinheiro pra fazer boca de urna. Às vezes pra mais de um candidato ao mesmo tempo exercendo a boa e velha malandragem, que talvez nem sempre dá certo.

Numa sociedade que distribui miséria, o voto custa barato.

Um saco de cimento, cerveja, cinquenta reais, promessa de emprego, um favor. É assim que vereadores, prefeitos e deputados continuam surgindo em muitos lugares do Brasil. E isso não é teoria conspiratória é uma experiência cotidiana.

Basta conversar cinco minutos com alguém da periferia perto de uma eleição e talvez te ofereçam alguma coisa pelo voto também. E aí a pergunta volta: onde exatamente está a democracia? Até que ponto a pobreza influencia o voto? E até que ponto isso já virou uma cultura da desesperança?

Porque quando você vai pra periferia ouvir as pessoas de verdade, percebe rapidamente uma coisa: pouca gente acredita nas instituições. Quando o assunto é política, então, a desconfiança vira quase consenso.

O pobre não tem "partido". Ele não tem apego ideológico sofisticado. Em geral, ele acredita no próprio trabalho, no improviso e no famoso “jeitinho”. Talvez parte da esquerda intelectual ainda interprete isso de maneira simplista demais. Como se todo pobre que defendesse pautas liberais estivesse sonhando em virar bilionário ou “defendendo rico”.

Mas talvez não seja isso. Talvez muita gente apenas acredite que o Estado nunca chegou de verdade onde ela mora. E, por isso, qualquer discurso que prometa menos burocracia, menos imposto ou mais autonomia acaba encontrando terreno fértil.

O discurso não é necessariamente “vou virar Elon Musk”. O discurso muitas vezes é apenas: “quero respirar sem depender de alguém”.

E isso revela uma coisa séria: a crise talvez não seja apenas econômica. Talvez seja uma crise profunda de confiança coletiva. Porque quando o Estado perde legitimidade simbólica, o dinheiro começa a ocupar o lugar da lei.

E talvez seja aí que a democracia vá lentamente se deformando numa espécie de plutocracia informal, onde o poder econômico invade até o imaginário religioso. Basta observar o crescimento das teologias da prosperidade, da lógica empreendedora aplicada à fé e da ideia de que vencer financeiramente virou quase um sinal de salvação.

Num cenário de escassez permanente, a ética coletiva enfraquece. Como dizia minha avó: onde a farinha é pouca, meu pirão primeiro. Não tenho solução pra isso. Mas talvez o primeiro passo seja admitir que existe um problema coletivo antes de exigir soluções individuais.

A questão é: será que ainda acreditamos no coletivo?

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